terça-feira, 17 de março de 2009

Biografia

Nascido em Pelotas, no ano de 1865, João Simões Lopes Neto descendia de uma família da elite rural (estancieira). Possuía ancestrais portugueses, de origem tanto açoriana como continental.
Foi para o Rio de Janeiro aos treze anos para estudar no conceituado Colégio Abílio. Em seguida, frequentou até o terceiro ano da Faculdade de Medicina. Porém, o que realmente o atraía era o jornalismo.
Casou-se em Pelotas, aos 27 anos, com Francisca de Paula Meireles Leite, de 19 anos, no dia 5 de maio de 1892.

Após seus vários fracassos empresarias, Simões Lopes Neto passou a sobreviver de atividades jornalística, estampando seus relatos em periódicos. Ninguém percebeu sua importância literária. Muitos ainda o tratavam com deferência, mas por suas origens aristocráticas e seu caráter generoso; outros viam nele apenas um derrotado, um tipo que merecia piedade. A própria mulher, com quem não teve filhos, parecia não amá-lo. Faleceu em pelotas, no ano de 1916, vítima de uma úlcera perfurada.

Vida Empresarial

Após a deserção da escola de Medicina, Simões voltou ao Sul, fixou-se em sua terra natal, Pelotas, então rica e próspera pelas mais de cinquenta charqueadas que lhe davam a base econômica. Foi nesta cidade que o jovem Simões Lopes Neto deu início a sua surpreendente e malograda carreira empresarial. Com idéias audaciosas , criou uma fábrica de vidros, cujos operários eram franceses e os aprendizes, meninos pobres da região. Depois, participou da montagem de uma poderosa destilaria, convencendo dezenas de homens ricos a se tornarem acionistas desta. Porém, estas fracassaram, tendo em conta a Guerra Civil que abalara duramente a economia local.
Mesmo assim, na virada do século XIX, construiu uma empresa de cigarros com recursos próprios – herança da fortuna de seu falecido pai e avô. Os produtos receberam o nome de Diabo. O sucesso inicial, causado pelo impacto da marca, deu lugar a ameaças de excomunhão e pressão religiosa que inviabilizaram a empresa.
Montou também uma firma de moer e torrar café, inventou uma fórmula à base de tabaco, para combater sarna e carrapatos, a Tabacina, que se manteve no mercado por dez anos e, para consumar esse processo, fundou a Empresa de Mineração Taió. Esta última, tinha como alvo as lendárias minas de prata em Santa Catarina. Porém, um ferreiro esperto, que se apresentava como engenheiro, lhe extorquiu grandes somas. A sequência de fracassos econômicos era proporcional ao seu ímpeto empreendedor, que finalmente lhe deixara falido.


Contexto Histórico

Centro de dezenas de charqueadas, Pelotas era o núcleo econômico da pecuária sul-rio-grandense, equiparando-se a Porto Alegre em importância social e cultural. Com a abolição, porém, o consumo de charque caiu rapidamente em todo país, já que era usado, sobretudo, para alimentar os escravos, e Pelotas entrou em decadência.
Todos os relatos de Simões transcorrem no passado, abrangendo um período histórico que se inicia depois da Independência e alcança o início do século XIX. Vários momentos históricos que ocorreram no Rio Grande do Sul são claramente evocados em seus contos, como a Revolução Farroupilha, as Guerras Platinas, Guerra do Paraguai e a Guerra Civil de 1893. Contudo, seus contos ficcionistas relatavam muito mais a tragédia humana do que os detalhes históricos do período.
Na época, já existia uma tradição literária no Rio grande do Sul, formada por algumas obras de autores menores. Porém, diferentemente das obras de Simões, estas avultavam a figura do monarca das coxilhas, ou seja, o homem do pampa, invariavelmente corajoso, leal e libertário.

Características gerais das Obras

João Simões Lopes Neto foi um dos grandes consolidadores de uma corrente surgida ainda no Romantismo, chamada de regionalismo.
Contudo, o que antes se designava como regionalismo era um conjunto de textos tradicionais que primavam pelo abuso da cor local, isto é, do retrato original de alguns aspectos do mundo agrário, dentro de uma ótica estritamente urbana. Contudo, Simões Lopes Neto, cuja pequena obra, composta por três livros de contos e um cancioneiro, apresenta uma dimensão revolucionária, em função dos seguintes fatores: registro predominantemente realista do universo gauchesco; utilização artística da linguagem própria da campanha sul-rio-grandense; sentido universal dos contos.
O modelo de conto empregado por Simões Lopes Neto provem de Guy Maupassant, então o escritor mais lido do mundo. É o chamado conto tradicional: curto, nervoso, centrado em uma única ação, conduzindo o leitor a surpresa de um desfecho inesperado e frequentemente trágico. A trama é, na verdade, uma preparação pra o clímax final.

Obras: Cancioneiro guasco (1910); Contos gauchescos (1912); Lendas do Sul (1913); Casos de Romualdo (1952, edição póstuma).

Contos Gauchescos - obra principal de Simões Lopes Neto

Uma das brilhantes inovações técnicas de Simões Lopes Neto, no contexto da literatura brasileira, foi ceder a voz narrativa de sua principal obra – Contos Gauchescos – a um velho vaquiano, Blau Nunes.
Percebem-se no decorrer dos dezenove contos as qualidades do narrador e paralelamente, os seus limites. Dois traços tornam-se nítidos: a oralidade e o regionalismo da linguagem e a fixação do mundo gauchesco.
A visão de Blau Nunes em relação ao gaúcho é ambígua. Por um lado, celebra-lhe as virtudes: a hombridade, a bravura, a honestidade, etc. Por outro lado, ele é essencialmente um gaudério, um homem que tem de seu apenas um cavalo e as habilidades campeiras e guerreiras. Alguém que pertence ao núcleo dos “de baixo” e que olha para os “de cima” com certa desconfiança.
Blau Nunes aparentemente subscreve todos os princípios heróicos e machistas do gaúcho, mas, no transcurso de suas histórias, acaba por contestá-los. A significação moral das histórias exige-se sobre um sentimento de relativo desconforto no narrador com a violência imperante no território gaúcho: a destruição do boi em serventia [O boi velho], a carnificina guerreira [O anjo da vitória], etc.

Livro Contos gauchescos


Outras Obras

Em Lendas do Sul, o autor compilou três lendas que então integravam o imaginário do homem do pampa (O negrinho do pastoreio, M’Boitatá, e A Salamanca do Jarau) e as estilizou em uma linguagem carregada de lirismo. Em alguns casos, o escritor, além de retocar a tradição mitológica, também deu as histórias rasgos de interpretação pessoal.
A tradição da oralidade popular que estrutura as obras de Simões Lopes Neto pode ser encontrada também nos Casos do Romualdo. Romualdo, que existiu de fato, é o contador da história por excelência: loquaz, mentiroso e contador de vantagens. Suas aventuras não têm veracidade algum, mas agradam pela força da invenção e por apelar continuamente no absurdo.

O Contrabandista

Narração do conto públicado na obra Contos Gauchescos.


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Bibliografia

ABAURRE, Maria Luiza; PONTARA, Marcela. Literatura Brasileira: tempos, leitores e leituras. São Paulo: Editora Moderna
GONZAGA, Sergius. Curso de literatura brasileira. Porto Alegre: Editora Leitura XXI
ALGO Sobre: Resumo literários - Contos gauchescos. Disponível em: <http://www.algosobre.com.br/resumos-literarios/contos-gauchescos.html>. Acesso em 17 de março de 2009.
Wikipedia: João Simões Lopes Neto. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Sim%C3%B5es_Lopes_Neto>. Acesso em 17 de março de 2009.
Página do Gaúcho: João Simões Lopes Neto. Disponível em: <http://www.paginadogaucho.com.br/escr/lopesneto.htm>. Acesso em 17 de março de 2009.